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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Maldito pedestal

Estação Corinthians-Itaquera. Só até meia-noite! (foto: Rafael RC)
Um rebaixamento, uma Série B, dois Campeonatos Paulistas, um Campeonato Brasileiro, uma Copa Libertadores, uma Recopa e o Mundial de Clubes.

Foi o que bastou, em oito anos, para o Corinthians, seus diretores, torcedores e até mesmo jogadores se acharem acima do bem e do mal.

A última: o clube enviará um pedido junto à Secretaria dos Transportes e o Governo do Estado para, nos dias de jogos no Itaquerão (Arena é a putaquepariu), o Metrô encerrar as atividades à uma da manhã, e não à meia-noite, como hoje é o padrão.

Só faltava essa.

Primeiro: sim, eu concordo que o metrô deveria funcionar 24 horas por dia, mas ainda não atingimos um nível de cidadania para requerer tal complexidade na organização e logística do transporte público. E enquanto não nos comportarmos como cidadãos exemplares (o que inclui respeito, cumprimento das leis e busca de informação para votar em políticos decentes, por exemplo), não podemos exigir nenhum serviço exemplar. De que valeria o sacrifício de se manter o metrô funcionando de madrugada? Para os vândalos quebrarem tudo?

Cena corriqueira em dias de eventos e jogos na maior cidade
do Brasil: imagina de madrugada? (foto: divulgação)
Porque é isso que acaba acontecendo. É só ver como ficam metrô, trens e ônibus em dias de jogos. As quatro horas que ele fica fechado funcionam para reparar os carros e limpar os trilhos (e soube recentemente que nesse procedimento os funcionários matam milhares de ratos, responsáveis por alguns danos na estrutura) para que, no dia seguinte, os TRABALHADORES possam desfrutar do sistema de transporte funcionando normalmente. Uma composição quebrada por dano mecânico significa um a menos circulando, que leva a mais tempo de espera nas plataformas, mais indignação... imaginem quando um carro tem que sair de circulação por causa do vandalismo?

É só ver os problemas que ocorrem quando o metrô e os trens ficam 24 horas por dia em eventos como a Virada Paulista, por exemplo. Então tem que ter intervalo de fechamento, mesmo.

Outros citaram que as empresas coloquem mais ônibus nos dias dos jogos. As mesmas se negam a fazer isso pelo mesmo motivo: vandalismo. Culpa do transporte? Não. Culpa do mau comportamento desses torcedores imbecis.

Não, eu não sou defensor do metrô, nem da CPTM, muito menos do Governo Estadual, tampouco do Municipal. Mas o sistema de transporte sempre funcionou assim e nunca se viu ninguém bradar "as injustiças contra o povo sofredor e oprimido pelo sistema", como alguns sem-noção estão apregoando por aí. Palmeirenses nunca reclamaram, são-paulinos, idem. Quando o próprio Corinthians jogava no Pacaembu, também não havia reclamação. E se havia alguma chiadeira, os torcedores arrumavam um jeito de se locomover. Por quê agora? Só porque o estádio sediou jogo de Copa do Mundo?

Colocar mais ônibus para atender os torcedores? Para que
isso se repita? (foto: divulgação)
Quem mandou construir o estádio tão longe?

"Rodrigo, isso é preconceito". Não. O problema da mobilidade e locomoção nas áreas mais afastadas é culpa da total ineficiência do Governo estadual e da Prefeitura, que nada tem a ver com o horário de funcionamento do metrô em dias de jogos.. Aí a gente deveria debater que houvessem mais ônibus e mais corredores exclusivos (como o Jabaquara-São Mateus) direcionados à Zona Leste, mas é outra história.

Essa discussão imbecil (para mim, perda de tempo) encobre o real problema da mobilidade em dias de jogos: o horário do início delas. Só pelo fato de termos partidas começando às 22:00 é uma aberração por si só.

E quem tem coragem de mudar isso? "A culpa é da Globo". Não. Ela paga (e muito), ela põe os jogos no horário que bem entender. A culpa é dos clubes, que aceitam isso passivamente, endividados, mal-geridos e quebrados, cada vez mais se apequenando diante do mundo, vendo seu público presente nos estádios cair cada vez mais, aliado ao sistema pay-per-view, com todos os jogos transmitidos. Cada vez mais as pessoas deixam essa encrenca de lado, afinal, para quê se estressar em gastar horas se locomovendo ao estádio, pagar caro no ingresso e nos lanches, encarando sol, frio ou chuva, em banheiros imundos e correndo o risco de virar número nas estatísticas de morte por causa da violência nos estádios? Nem a pau!

E o culpado é o sistema de transporte? Vão pro inferno!!

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